19.5.06


Hora Morta
Fernando Pessoa



Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(alma que se ignora!)
Lenta, lenta e lenta
Lenta e sonolenta
A lua se escoa...

Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil – ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente

Naufrágio ante o ocaso...
Hora de piedade
Tudo é nevoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida.
(Que poente me invade?)
Porque lenta ante olha
Lenta e sem som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar AMAR?